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António

Blog informal de apoio da candidatura de António Costa a Secretário-geral do Partido Socialista.

António

Blog informal de apoio da candidatura de António Costa a Secretário-geral do Partido Socialista.

Do país e dos afetos

Se quisermos descrever o estado do país ao fim destes anos de governação PSD/CDS podemos escolher a palavra desesperança.

O projeto de empobrecimento levado a cabo por uma direita renovada e destruidora confrontou os cidadãos com o questionamento de tudo o que tinham por adquirido: desde o valor da Constituição, ao Estado Social, ao papel na concretização deste levado a cabo pelo trabalho especifico dos funcionários públicos, à segurança na velhice como direito e não benesse, ao papel de irradicação da pobreza assumido pelas prestações sociais, à segurança no trabalho posta em leis laborais avançadas e dignas, ao valor da igualdade, ao valor da confiança que devemos ter no Estado enquanto pessoa de bem, ao poder político que nos defende quando dialoga com parceiros externos, à coesão social, à importância da existência de uma classe média sólida, até ao significado menos exigente da palavra verdade no discurso governativo.

As eleições europeias só têm uma leitura lúcida: a direita teve uma derrota humilhante e merecida; o eleitorado não a quer; esse mesmo eleitorado não vê no PS uma alternativa forte de governação, forte em número de votos, distante de coligações frágeis e perigosas, forte na liderança que não mobilizou o povo - como pediu ao longo de toda a campanha - a dizer que o PS é a tal alternativa de governo forte.

Perante isto, António Costa mostrou-se disponível para protagonizar um PS que nas legislativas ganhe o que pediu, e não conseguiu, nas europeias.

Trata-se de um gesto político, campo que não deve ser invadido de qualificações afetivas, como a mágoa de Seguro confessada numa entrevista. A candidatura de Costa não é um gesto do campo dos afetos, das mágoas ou das traições. Trata-se antes de um gesto de autenticidade e de coragem, de alguém que pondo o país em primeiro lugar, percebeu que este quer uma alternativa e que o PS deve e tem de ser essa alternativa.

Seguro deve ser louvado, e eu faço-o, pela oposição que tem protagonizado. E é evidente que fazer tudo o que está ao seu alcance e não conseguir o que pediu aos eleitores dói. É sabido que a política com entrega tem essa dimensão.

Acontece que o país está primeiro lugar e Seguro sabe que 31, 5% nas atuais circunstâncias são uma derrota; Seguro sabe que quem apoia a leitura de Costa não é movido por nada de pessoal ou afetivo; Seguro sabe que os socialistas anseiam por um esclarecimento digno e rápido, à altura do PS, através de um congresso extraordinário; Seguro sabe que fora do PS o apoio a Costa é impressionante; Seguro sabe que quem mais o quer a liderar o PS é a direita; Seguro sabe que arrastar a situação com propostas de alteração dos estatutos acompanhadas de “estudo do direito comparado” e ainda acompanhadas de propostas conjunturais de alteração da lei eleitoral ultrapassam qualquer demagogia vista na cena política portuguesa; Seguro sabe que se vingasse uma única das ideias que lhe passou pela cabeça, com a autenticidade zero intuída por todos, estava aberta a porta para a destruição do PS.

Não acredito que Seguro ponha a sua mágoa, a sua credibilidade como político que não se agarra ao poder pelo poder, acima do país e acima do PS.

Tenho por certo que a intranquilidade geradora de passos falsos dará lugar ao único gesto que um líder que é líder pode ter imediatamente: convocar um congresso extraordinário e não temer nem os militantes nem o povo.